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quinta-feira, 27 de março de 2014

APROVEITE... VÁ GRATUITAMENTE AO TEATRO



Dia Mundial do Teatro 2014


©Abílio Leitão



O TNDM II assinala o Dia Mundial do Teatro com um conjunto de atividades de entrada livre. Espetáculos, uma exposição e uma leitura encenada são as propostas para comemorar esta data especial.



A PORTA [espetáculo]
11h e 16h, Sala Estúdio

Uma menina e os pais chegam, de malas feitas, a uma casa nova. Mas a casa nova não tem nem paredes, nem teto, nem nada. Apenas uma porta. - Uma porta é um bom começo! - disse logo o pai que era um sonhador. Mas a mãe ficou muito aflita. - E onde é que está a cozinha, a sala, o quarto?! Tudo estava por inventar naquela casa que ainda só tinha uma porta. No entanto, essa não era uma porta vulgar. Abria para um mundo mágico onde viviam e vivem os novos vizinhos...

de José Fanha | encenação João Mota | cenografia João Calixto – Fosso de Orquestra | figurinos Mónica Cid | desenho de luz José Carlos Nascimento | música original e sonoplastia Hugo Franco | cabelos e maquilhagem Carla Pinho | com Bernardo Chatillon, Joana Cotrim, Jorge Albuquerque, LitaPedreira, Luis Geraldo, Maria Jorge e Rita Figueiredo (ano 2012/2013 ESTC) | produção TNDM II | M/6



NO TEMPO EM QUE OS INSTRUMENTOS FALAVAM [espetáculo]
13h e 17h30, Átrio TNDM II

Este é um espetáculo interativo sobre música do século XVIII para crianças curiosas e adultos divertidos. Especialmente dirigido a crianças do primeiro e segundo ciclos do ensino básico, pretende-se aqui introduzir a Música Barroca no seu contexto histórico, através de uma viagem no tempo de três personagens (um historiador de música, Charles Burney, um flautista e uma cravista). Histórias sobre a música e os músicos dos séculos XVII e XVIII, numa perspetiva lúdica e despretensiosa em que a música, dita erudita, é apresentada de uma forma divertida e acessível. As crianças ouvem música, conversam, jogam, dançam, contam histórias…

criação Joana Amorim, Joana Bagulho e F. Pedro Oliveira | interpretação Joana Amorim (traverso), Joana Bagulho (cravo) e F. Pedro Oliveira (ator) | figurinos Kusturicas (Ana Direito e Isabel Peres)



20 DIZER [espetáculo]
21h, Salão Nobre

A palavra com som, cor, corpo e alma. Um duo com muita gente dentro. 20 Dizer vai ser um momento muito especial, aquele que o Trigo Limpo teatro ACERT vai criar propositadamente para a celebração do Dia Mundial do Teatro no Teatro Nacional D. Maria II. A viagem poético-musical terá como cicerones, dramaturgos e escritores cujas palavras voam apaixonadamente nos palcos: Almada Negreiros, Bernardo Santareno, Bertolt Brecht, Charlie Chaplin, Chico Buarque, Eduardo White, Federico García Lorca, Gil Vicente, Hélia Correia, José Saramago, Luís Carlos Patraquim, Mia Couto, Sofia de Mello Breyner Andresen, Vinicius de Moraes, William Shakespeare e Herberto Helder, como tributo por O Actor. José Rui Martins e Luísa Vieira partilham o palco num exercício de comunicação, explorando a musicalidade da palavra e a simplicidade de dar voz a seduções emotivas. A leitura poética voando em múltiplas geografias com sonoridades que a embalam e impacientam.

direção artística, textos e declamação José Rui Martins | arranjos, voz, flauta e m’bira Luísa Vieira | som e luz Filipe de Jesus | fotos Carlos Teles, Ricardo Chaves | produção Trigo Limpo teatro ACERT | M/12



LUCIEN DONNAT, UM CRIADOR RIGOROSO [exposição]
10h às 12h30 e 14h30 às 16h30, 1ª Ordem

A exposição, que evoca a vida e obra de um dos mais importantes desenhadores do teatro português, ocupa dois espaços distintos. No TNDM II, destaca-se a análise da peça Antígona, espetáculo de estreia da atriz Mariana Rey Monteiro, em abril de 1946, e referencia-se o trabalho de Lucien Donnat como decorador em espaços públicos. No Museu Nacional do Teatro, apresenta-se um percurso cronológico do trabalho de Lucien Donnat para o teatro em Portugal.

curadores Vítor Pavão dos Santos (Teatro) e Rui Afonso Santos (Decoração) | uma iniciativa do TNDMII em parceria com o Museu Nacional do Teatro



NOSSA SENHORA DA AÇOTEIA [leitura encenada]
18h, Biblioteca da Imprensa Nacional – Casa da Moeda

Nossa Senhora da Açoteia é um monólogo onde uma ‘mulher’ conta a sua história e a das suas anteriores gerações, tendo como cenário social e geográfico uma fábrica de conservas de peixe no Algarve. Aos 38 anos, Luís Campião conquista um dos mais prestigiados galardões dedicados à leitura lusófona - o Prémio Luso-Brasileiro de Dramaturgia António José da Silva - uma iniciativa conjunta do Camões - Instituto da Cooperação e da Língua (Portugal) e da Fundação Nacional de Artes / Funarte (Brasil).

de Luís Campião | por José Neves | com a presença do autor e de João Mota (diretor artístico do TNDM II)




Condições gerais para o levantamento de bilhetes
:

abertura de portas - 9h30
abertura de bilheteira para os espetáculos - 10h

O levantamento dos bilhetes é limitado a 2 por pessoa e sujeito à lotação disponível. Para este dia, não se aceitam reservas de lugares.

DIA MUNDIAL DO TEATRO

CIÊNCIA E POESIA


                      
                      
                           E de repente fez-se luz!
                       O universo resplandeceu,

                       E toda a energia se manifestou

                       Entre a amálgama de coisas,

                       Criadas instantaneamente.

                       Fez-se luz e tudo acordou,

                       Reverberando assimptoticamente,

                       Até tudo se começar a parecer com tudo.

                       Então toda a criação rejubilou em cascatas de eventos,

                       Lentamente forjando a realidade pelos espaços.

                       Quando surgiu o negro já tudo estava fadado…
                                                                                                                        Hélio Pinto

POESIA E CIÊNCIA


        
       
       
       O passado o presente e o futuro

                        São entidades abstractas que nada significam

                        O tempo apenas existe enquanto o espaço existe

                        Antes do espaço o nada

                        O eterno nada que compõe todo o Universo

                        Tornando a sua existência completa
                                                     
                                                                                 Hélio Pinto

quarta-feira, 26 de março de 2014


imácula densa
    quando os deuses forem cegos

        não poderão ver-me assim
        extraviado em mim
        vaiado sem aconchegos
        extravasado ruim
        na incontinência dos egos
        quando todos formos cegos
        seremos deuses enfim



                                                                                     Jerónimo Nogueira

Na Memória Moram os Muitos Mais de Mim

DIA MUNDIAL DO TEATRO, AMANHÃ, DIA 27 DE MARÇO.

 
  
Teatro dos Aloés 

NOITE DE GUERRA NO MUSEU DO PRADO

DIA MUNDIAL DO TEATRO (27 MARÇO)

ENTRADA LIVRE

 
Conversa com o público no final do espetáculo:
27 e 30 de Março.
Autor Rafael Alberti Tradução Mário Barradas Encenação José Peixoto
Coprodução Teatro dos Aloés, TNSJ
Interpretação Adriana Moniz, Anna Eremin, Carlos Malvarez, Elsa Valentim, Jorge Silva, José Peixoto, Miguel Raposo, Nuno Nunes. Patrícia André, Rui M. Silva
M/12

Até 30 de Março nos Recreios da Amadora
qua. a sab. 21h30 /dom. 16h00

Reservas: teatrodosaloes@sapo.pt ou 916648204.
Levantamento dos bilhetes até 60 min antes do início do espetáculo.

Mais info em:
www.facebook/teatro.dosaloes
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Teatro dos Aloés

Preparação das Atividades do Centenário da Escola



Na Biblioteca, um grupo de alunos, em atividades de integração da BE, elaborou, com muito empenho, os cartazes alusivos ao Centenário da Escola  e à "Festa da Poesia", coordenados pelo professor Luís Valido.


  
















terça-feira, 25 de março de 2014

RETÉM...






Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.


Ricardo Reis, 14-2-1933





ARY DOS SANTOS








CAVALO À SOLTA


Minha laranja amarga e doce
meu poema
feito de gomos de saudade
minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve, breve
instante da loucura

Minha ousadia
meu galope
minha rédea
meu potro doido
minha chama
minha réstia
de luz intensa
de voz aberta
minha denúncia do que pensa
do que sente a gente certa

Em ti respiro
em ti eu provo
por ti consigo
esta força que de novo
em ti persigo
em ti percorro
cavalo à solta
pela margem do teu corpo

Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura.

Por isso digo
canção castigo
amêndoa travo corpo alma amante amigo
por isso canto
por isso digo
alpendre casa cama arca do meu trigo

Meu desafio
minha aventura
minha coragem de correr contra a ternura


 

MANUEL ANTÓNIO PINA







A um Jovem Poeta

Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser

que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças

como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.

Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.



Amor como em casa

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.




Disponível na nossa BE

Deixe-se contagiar pelas "palavras dançantes" de Jerónimo Nogueira


ANDANÇAS



"dançar é andar contente por ente gente"

                                                                   Jerónimo Nogueira



                             perene


perene na dança
teu corpo balança
táctil musical
sigo-te felino
trilhando teu tino
no sino areal…

 metamorfose


fizeste-me feiticeiro
surgida de sem saber
segredas o teu luzeiro
acenas sem ninguém ver
e no terreiro das danças
brincamos como crianças
felizes de assim ser…

  
bailação

a bailar tu se me dê
tu se me dê encantada
e no talento se crê
para lá do que se vê
outra vida ser dançada…







1 de Abril de 2014
10h 15m - Sala 3.01


Concurso
 Canguru Matemático Sem Fronteiras

 
Inscreve-te até dia  26 de Março 
 com um Professor de Matemática
 e consulta o site: 

  http://www.mat.uc.pt/canguru/

domingo, 23 de março de 2014






Los suspiros son aire, y van al aire

Los suspiros son aire, y van al aire.
Las lágrimas son agua, y van al mar.
Dime, mujer: cuando el amor se olvida,
? sabes tú a donde va?



?Qué es poesia? - dices, mientras clavas...

-Qué es poesía- dices, mientras clavas
em mi pupila tu pupila azul.
?Qué es poesia? Y tu me lo preguntas?
Poesia ... eres tú.



 Hoy la tierra y los cielos me sonríen

Hoy la tierra e los cielos me sonríen;
hoy llega al fondo de mi alma el sol;
hoy la he visto... la he visto y me ha mirado...
Hoy creo en Dios!



Por una mirada, um mundo

Por una mirada, un mundo;
por una sonrisa, un cielo;
por un beso.. yo no sé
qué te diera por um beso!


Gustavo Becquer
Poeta sevilhano
Século XIX




sábado, 22 de março de 2014

SUGESTÃO MUSICAL...


CANDY DULFER

SAXOFONISTA
HOLANDESA

           



O seu estilo de jazz enquadra-se no  pop e no smooth jazz





Candy Dulfer, filha do saxofonista Hans Dulfer, toca sax alto, desde os sete anos.
Formou a banda Funky Stuff aos quatorze anos.
Começou a fazer gravações internacionais aos dezenove anos e, desde os vinte anos, o seu sucesso tem sido sempre crescente...

Adiafa da Poesia este Sábado na Casa Fernando Pessoa






A Casa Fernando Pessoa recebe, nesta tarde de Sábado, 22 de Março, a iniciativa "Adiafa da Poesia", da associação campOvivo - Campo de Ourique em movimento. A partir das 15h00, no Auditório, o actor João D'Ávila diz poemas de desconhecidos e consagrados, oferecidos pela comunidade do bairro que Lisboa está, cada vez mais, a (re)descobrir. 

A entrada é livre e sujeita ao limite de lugares disponíveis.

MÁRIO DE SÁ CARNEIRO

 O João Reis enviou esta relíquia...








Apoteose

Mastros quebrados, singro num mar d'Ouro
Dormindo fôgo, incerto, longemente...
Tudo se me igualou num sonho rente,
E em metade de mim hoje só móro...

São tristezas de bronze as que inda choro -
Pilastras mortas, marmores ao Poente...
Lagearam-se-me as ânsias brancamente
Por claustros falsos onde nunca óro...

Desci de mim. Dobrei o manto d'Astro,
Quebrei a taça de cristal e espanto,
Talhei em sombra o Oiro do meu rastro...

Findei... Horas-platina... Olor-brocado...
Luar-ânsia... Luz-perdão... Orquideas pranto...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

- Ó pantanos de Mim - jardim estagnado...

Mário de Sá-Carneiro, in 'Indícios de Oiro'





http://cvc.instituto-camoes.pt/literatura/sacarneiro.htm




Resistência ao vivo - Fim

sexta-feira, 21 de março de 2014

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN...


Como ela própria afirmou:

"(...) Eu posso dizer que escrevo para transformar o mundo. Eu penso que a poesia deve transformar o mundo!"


             
1919-2004  


     
Este é o tempo 

Este é o tempo...
Da selva mais obscura 
Até o ar se tornou grades 
E a luz do sol se tornou impura 
Esta é a noite 
Densa de chacais 
Pesada de amargura 
Este é o tempo em que os homens renunciam.

in Mar Novo, (1972)



INSCRIÇÃO

Quando eu morrer voltarei para buscar
os instantes que não vivi junto do mar

                       
                   Sophia de Mello Breyner Andresen

Mar

Mar, metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia,
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfez.
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.

E se vou dizendo aos astros o meu mal
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.
E se antes de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo,
É só porque as tuas ondas são puras.


Sophia de Mello Breyner Andresen, Poesia I

As pessoas sensíveis não são capazes

De matar galinhas

Porém são capazes

De comer galinhas



O dinheiro cheira a pobre e cheira

À roupa do seu corpo

Aquela roupa

Que depois da chuva secou sobre o corpo

Porque não tinham outra

O dinheiro cheira a pobre e cheira

A roupa

Que depois do suor não foi lavada

Porque não tinham outra



«Ganharás o pão com o suor do teu rosto»

Assim nos foi imposto

E não:

«Com o suor dos outros ganharás o pão»



Ó vendilhões do templo

Ó construtores

Das grandes estátuas balofas e pesadas

Ó cheios de devoção e de proveito



Perdoai-lhes Senhor

Porque eles sabem o que fazem


LUÍS DE CAMÕES






http://cvc.instituto-camoes.pt/literatura/camoes.htm




- Amor é Fogo que Arde sem se Ver - Luís de Camões





Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Luís de Camões








JOSÉ RÉGIO



http://cvc.instituto-camoes.pt/poemasemana/04/01.html


Cântico Negro - José Régio


Cântico Negro


"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

             José Régio

http://cvc.instituto-camoes.pt/poemasemana/04/01.html

EUGÉNIO DE ANDRADE




 O Sorriso - Eugénio de Andrade


O Sorriso

Creio que foi o sorriso,

o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso. 



Eugénio de Andrade


 Adeus - Eugénio de Andrade

 Adeus


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,

e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mão à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti

não há nada que me peça água.

O passado é inútil como um trapo.

E já te disse: as palavras estão gastas.


Adeus.
                                             Eugénio de Andrade