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quinta-feira, 27 de março de 2014

POESIA E CIÊNCIA


        
       
       
       O passado o presente e o futuro

                        São entidades abstractas que nada significam

                        O tempo apenas existe enquanto o espaço existe

                        Antes do espaço o nada

                        O eterno nada que compõe todo o Universo

                        Tornando a sua existência completa
                                                     
                                                                                 Hélio Pinto

quarta-feira, 26 de março de 2014


imácula densa
    quando os deuses forem cegos

        não poderão ver-me assim
        extraviado em mim
        vaiado sem aconchegos
        extravasado ruim
        na incontinência dos egos
        quando todos formos cegos
        seremos deuses enfim



                                                                                     Jerónimo Nogueira

Na Memória Moram os Muitos Mais de Mim

Preparação das Atividades do Centenário da Escola



Na Biblioteca, um grupo de alunos, em atividades de integração da BE, elaborou, com muito empenho, os cartazes alusivos ao Centenário da Escola  e à "Festa da Poesia", coordenados pelo professor Luís Valido.


  
















terça-feira, 25 de março de 2014

RETÉM...






Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.


Ricardo Reis, 14-2-1933





ARY DOS SANTOS








CAVALO À SOLTA


Minha laranja amarga e doce
meu poema
feito de gomos de saudade
minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve, breve
instante da loucura

Minha ousadia
meu galope
minha rédea
meu potro doido
minha chama
minha réstia
de luz intensa
de voz aberta
minha denúncia do que pensa
do que sente a gente certa

Em ti respiro
em ti eu provo
por ti consigo
esta força que de novo
em ti persigo
em ti percorro
cavalo à solta
pela margem do teu corpo

Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura.

Por isso digo
canção castigo
amêndoa travo corpo alma amante amigo
por isso canto
por isso digo
alpendre casa cama arca do meu trigo

Meu desafio
minha aventura
minha coragem de correr contra a ternura


 

MANUEL ANTÓNIO PINA







A um Jovem Poeta

Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser

que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças

como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.

Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.



Amor como em casa

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.




Disponível na nossa BE

Deixe-se contagiar pelas "palavras dançantes" de Jerónimo Nogueira


ANDANÇAS



"dançar é andar contente por ente gente"

                                                                   Jerónimo Nogueira



                             perene


perene na dança
teu corpo balança
táctil musical
sigo-te felino
trilhando teu tino
no sino areal…

 metamorfose


fizeste-me feiticeiro
surgida de sem saber
segredas o teu luzeiro
acenas sem ninguém ver
e no terreiro das danças
brincamos como crianças
felizes de assim ser…

  
bailação

a bailar tu se me dê
tu se me dê encantada
e no talento se crê
para lá do que se vê
outra vida ser dançada…







1 de Abril de 2014
10h 15m - Sala 3.01


Concurso
 Canguru Matemático Sem Fronteiras

 
Inscreve-te até dia  26 de Março 
 com um Professor de Matemática
 e consulta o site: 

  http://www.mat.uc.pt/canguru/

domingo, 23 de março de 2014






Los suspiros son aire, y van al aire

Los suspiros son aire, y van al aire.
Las lágrimas son agua, y van al mar.
Dime, mujer: cuando el amor se olvida,
? sabes tú a donde va?



?Qué es poesia? - dices, mientras clavas...

-Qué es poesía- dices, mientras clavas
em mi pupila tu pupila azul.
?Qué es poesia? Y tu me lo preguntas?
Poesia ... eres tú.



 Hoy la tierra y los cielos me sonríen

Hoy la tierra e los cielos me sonríen;
hoy llega al fondo de mi alma el sol;
hoy la he visto... la he visto y me ha mirado...
Hoy creo en Dios!



Por una mirada, um mundo

Por una mirada, un mundo;
por una sonrisa, un cielo;
por un beso.. yo no sé
qué te diera por um beso!


Gustavo Becquer
Poeta sevilhano
Século XIX




sábado, 22 de março de 2014

SUGESTÃO MUSICAL...


CANDY DULFER

SAXOFONISTA
HOLANDESA

           



O seu estilo de jazz enquadra-se no  pop e no smooth jazz





Candy Dulfer, filha do saxofonista Hans Dulfer, toca sax alto, desde os sete anos.
Formou a banda Funky Stuff aos quatorze anos.
Começou a fazer gravações internacionais aos dezenove anos e, desde os vinte anos, o seu sucesso tem sido sempre crescente...

Adiafa da Poesia este Sábado na Casa Fernando Pessoa






A Casa Fernando Pessoa recebe, nesta tarde de Sábado, 22 de Março, a iniciativa "Adiafa da Poesia", da associação campOvivo - Campo de Ourique em movimento. A partir das 15h00, no Auditório, o actor João D'Ávila diz poemas de desconhecidos e consagrados, oferecidos pela comunidade do bairro que Lisboa está, cada vez mais, a (re)descobrir. 

A entrada é livre e sujeita ao limite de lugares disponíveis.

MÁRIO DE SÁ CARNEIRO

 O João Reis enviou esta relíquia...








Apoteose

Mastros quebrados, singro num mar d'Ouro
Dormindo fôgo, incerto, longemente...
Tudo se me igualou num sonho rente,
E em metade de mim hoje só móro...

São tristezas de bronze as que inda choro -
Pilastras mortas, marmores ao Poente...
Lagearam-se-me as ânsias brancamente
Por claustros falsos onde nunca óro...

Desci de mim. Dobrei o manto d'Astro,
Quebrei a taça de cristal e espanto,
Talhei em sombra o Oiro do meu rastro...

Findei... Horas-platina... Olor-brocado...
Luar-ânsia... Luz-perdão... Orquideas pranto...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

- Ó pantanos de Mim - jardim estagnado...

Mário de Sá-Carneiro, in 'Indícios de Oiro'





http://cvc.instituto-camoes.pt/literatura/sacarneiro.htm




Resistência ao vivo - Fim

sexta-feira, 21 de março de 2014

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN...


Como ela própria afirmou:

"(...) Eu posso dizer que escrevo para transformar o mundo. Eu penso que a poesia deve transformar o mundo!"


             
1919-2004  


     
Este é o tempo 

Este é o tempo...
Da selva mais obscura 
Até o ar se tornou grades 
E a luz do sol se tornou impura 
Esta é a noite 
Densa de chacais 
Pesada de amargura 
Este é o tempo em que os homens renunciam.

in Mar Novo, (1972)



INSCRIÇÃO

Quando eu morrer voltarei para buscar
os instantes que não vivi junto do mar

                       
                   Sophia de Mello Breyner Andresen

Mar

Mar, metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia,
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfez.
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.

E se vou dizendo aos astros o meu mal
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.
E se antes de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo,
É só porque as tuas ondas são puras.


Sophia de Mello Breyner Andresen, Poesia I

As pessoas sensíveis não são capazes

De matar galinhas

Porém são capazes

De comer galinhas



O dinheiro cheira a pobre e cheira

À roupa do seu corpo

Aquela roupa

Que depois da chuva secou sobre o corpo

Porque não tinham outra

O dinheiro cheira a pobre e cheira

A roupa

Que depois do suor não foi lavada

Porque não tinham outra



«Ganharás o pão com o suor do teu rosto»

Assim nos foi imposto

E não:

«Com o suor dos outros ganharás o pão»



Ó vendilhões do templo

Ó construtores

Das grandes estátuas balofas e pesadas

Ó cheios de devoção e de proveito



Perdoai-lhes Senhor

Porque eles sabem o que fazem


LUÍS DE CAMÕES






http://cvc.instituto-camoes.pt/literatura/camoes.htm




- Amor é Fogo que Arde sem se Ver - Luís de Camões





Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Luís de Camões








JOSÉ RÉGIO



http://cvc.instituto-camoes.pt/poemasemana/04/01.html


Cântico Negro - José Régio


Cântico Negro


"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

             José Régio

http://cvc.instituto-camoes.pt/poemasemana/04/01.html

EUGÉNIO DE ANDRADE




 O Sorriso - Eugénio de Andrade


O Sorriso

Creio que foi o sorriso,

o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso. 



Eugénio de Andrade


 Adeus - Eugénio de Andrade

 Adeus


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,

e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mão à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti

não há nada que me peça água.

O passado é inútil como um trapo.

E já te disse: as palavras estão gastas.


Adeus.
                                             Eugénio de Andrade







FESTA DA POESIA NO CENTRO CULTURAL DE BELÉM

22 Mar 2014 - 11:00 às 18:30

Centro de reuniões
Entrada Livre sujeita à capacidade de cada uma das salas



"Pelo sétimo ano consecutivo e numa iniciativa conjunta do Plano Nacional da Leitura (Ministério da Educação e Ciência e Secretaria de Estado da Cultura) e do Centro Cultural de Belém, comemoramos no dia 22 de Março, o Dia Mundial da Poesia.

A comemoração inclui um programa intenso, que terá inicio às 11h com a exposição Como as Cerejas. Ao longo do dia contaremos com a Feira do Livro de Poesia, com espaços onde a poesia portuguesa é dita por poetas, actores e personalidades – incluindo o já indispensável espaço para os espontâneos, Diga lá um Poema - e um conjunto de Oficinas e Actividadesque a Fábrica das Artes organiza para todas as idades.

Este ano a Maratona da Leitura é dedicada a Vitorino Nemésio, homenageado também com a exibição do documentário de Maria João Rocha, Viagem (1999).

Contaremos novamente com a Poesia Latino Americana, organizada em colaboração com a Casa da América Latina.

O êxito das primeiras edições leva-nos a dar continuidade ao Concurso de Poesia dirigido às escolas, cuja selecção final terá lugar no Centro Cultural de Belém, com a atribuição de prémios para os melhores poemas.

Os espaços do Centro Cultural de Belém vão ser vividos num ambiente de festa com muita poesia, para todas as idades."

DIA MUNDIAL DA POESIA


Viva a Poesia...


«É na nossa poesia que se encontra isso que os políticos tão afanosamente buscam: a nossa identidade»                  
 
Eugénio de Andrade



 

quinta-feira, 20 de março de 2014

FLORBELA ESPANCA

A melhor definição de poeta...



Ser Poeta - Florbela Espanca

GRUPO

Ser Poeta



Ser poeta é ser mais alto, é ser maior

Do que os homens! Morder como quem beija!

É ser mendigo e dar como quem seja

Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!



É ter de mil desejos o esplendos

E não saber sequer que se deseja!

É ter cá dentro um astro que flameja,

É ter garras e asas de condor!



É ter fome, é ter sede de Infinito!

Por elmo, as manhãs de oiro e cetim…

É condensar o mundo num só grito!



E é amar-te, assim, perdidamente…

É seres alma e sangue e vida em mim

E dizê-lo cantando a toda a gente!





(Florbela Espanca, «Charneca em Flor», in «Poesia Completa»)




terça-feira, 18 de março de 2014

SEBASTIÃO DA GAMA







http://cvc.instituto-camoes.pt/poemasemana/35/sentimentos2.html


"O poeta beija tudo, graças a Deus... E aprende com as coisas a sua lição de sinceridade... 

E diz assim: "É preciso saber olhar..."

E pode ser, em qualquer idade, ingénuo como as crianças, entusiasta como os adolescentes e profundo como os homens feitos...

E levanta uma pedra escura e áspera para mostrar uma flor que está por detrás...

E perde tempo (ganha tempo...) a namorar uma ovelha...

E comove-se com coisas de nada: um pássaro que canta, uma mulher bonita que passou, uma menina que lhe sorriu, um pai que olhou desvanecido para o filho pequenino, um bocadinho de sol depois de um dia chuvoso...

E acha que tudo é importante...

E pega no braço dos homens que estavam tristes e vai passear com eles para o jardim...

E reparou que os homens estavam tristes... "

E escreveu uns versos que começam desta maneira: "O segredo é amar..."






Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.

Chegamos? Não chegamos?

Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos,
basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria
ao que desconhecemos
e ao que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?

─ Partimos. Vamos. Somos.


Sebastião da Gama
Pelo sonho é que vamos
Lisboa, Ed. Ática, 1992

APRECIE O ECLETISMO DE ANTÓNIO GEDEÃO






http://www.escritas.org/pt/biografia/antonio-gedeao





Pedra Filosofal


Eles não sabem que o sonho

é uma constante da vida

tão concreta e definida

como outra coisa qualquer,

como esta pedra cinzenta

em que me sento e descanso,

como este ribeiro manso

em serenos sobressaltos,

como estes pinheiros altos

que em verde e oiro se agitam,

como estas aves que gritam

em bebedeiras de azul.



eles não sabem que o sonho

é vinho, é espuma, é fermento,

bichinho álacre e sedento,

de focinho pontiagudo,

que fossa através de tudo

num perpétuo movimento.



Eles não sabem que o sonho

é tela, é cor, é pincel,

base, fuste, capitel,

arco em ogiva, vitral,

pináculo de catedral,

contraponto, sinfonia,

máscara grega, magia,

que é retorta de alquimista,

mapa do mundo distante,

rosa-dos-ventos, Infante,

caravela quinhentista,

que é cabo da Boa Esperança,

ouro, canela, marfim,

florete de espadachim,

bastidor, passo de dança,

Colombina e Arlequim,

passarola voadora,

pára-raios, locomotiva,

barco de proa festiva,

alto-forno, geradora,

cisão do átomo, radar,

ultra-som, televisão,

desembarque em foguetão

na superfície lunar.



Eles não sabem, nem sonham,

que o sonho comanda a vida,

que sempre que um homem sonha

o mundo pula e avança

como bola colorida

entre as mãos de uma criança.



In Movimento Perpétuo, 1956



segunda-feira, 17 de março de 2014

JERÓNIMO NOGUEIRA - A POESIA TÃO PERTO DE NÓS...


LEIA E DELEITE-SE COM OS POEMAS DO POETA 

JERÓNIMO 
NOGUEIRA








Sinopse:

O autor diz, na poética dos escritos, o seu ser cego: «Entre cego e mendigo / Das pedras também brota água / E o entre dá a frágua / Do amor ser ver sofrido». Da realidade do não-ver à prosperidade do a-ver, comunga-se a tarefa do não-visto. Identidade de um viver teimosamente hostil mas revelador – no lugar pleno que a escrita aventura – da largueza do conceito de visão.




Sinopse:

Neste segundo livro, – o primeiro foi Das Pedras Também Brota Água (pagina anterior) –, Jerónimo Nogueira vem confirmar a sua notável sensibilidade poética. «Não se nasce escritor mas renasce-se quando se o é. Íntimo das coisas, desejado com palavras. Marcam os incontados dos mundos no seu quê afuturado de paixão. E na humildade lugarejo de o dizer a beleza emparceira, tacteia, segreda. Porque a escrita é razão de ver e a obra amor de ser».





Sinopse:«Um dia adormeci em cima duma carrada de junco à borda do Senhor da Ribeira. Tive um sonho. Estava a escrever e nunca mais parava, como se a literatura fosse uma conversa interminável, como se as letras fossem um imenso barro enformado nos delíquios das histórias e fornificadas nos calores das vidas. Na grande noite combinatória da criação os deuses fazem-nos mais irmãos».





Sinopse:

“O verbo se atreve / se na letra estrele ja / uma luz que longe leve / por cega que essa luz seja.”. Poesia a seis mãos, com fotografias.




JOÃO REIS - A POESIA TÃO PERTO DE NÓS...


LEIA E DELEITE-SE COM OS POEMAS DO POETA

JOÃO REIS


Maravilhem-se...

Obrigada, João Reis!


As noites de Inverno são frias
Como as cordas que me prendem à vida.
As sombras vagas, esguias
Como ramos de árvore ferida.

Os braços que estendo são quentes
Escravos da tua boca cerrada.
Quando falas sabem que mentes
Se perguntam, não dizes nada.

Os tristes dias que deslizam
Escorrendo por entre os meus dedos
Existem, não se realizam
Só me trazem novos segredos.

Meus olhos suspensos, vidrados
Não se cansam de encontrar
Os sonhos todos sonhados
As lutas sempre a acabar.

JReis
1968



Agora

como pedra a despertar do frio
para o sofrimento dos homens
em sapatos cambados
em cotovelos
com ângulos de escuridão

quem és tu que não trazes o sol
dormitando de tédio nas mãos
que chegue para apagar a teia gelada
que a Morte cismou à minha volta?

                                                           
JReis
1969


MEA CULPA


Não sou culpado do mar

nem a lua me atravessa.

Não sou culpado dos sonhos

não há sol que me despeça.


Não sou culpado da dor

não arraso firmamentos.

Tenho contrato fechado

com a rosa-dos-ventos.


Não sou culpado do corpo

nem me escondo da tormenta.

Não sou sequer a cadeira

em que o amor se senta.


Não sou culpado dos ossos

que me obrigam a roer.

Não sou culpado da morte

mas convertido a viver.


Não sou culpado da música

que a minha boca assobia.

“Mea culpa” é ter nascido

algum dia.
 
JReis
1974