terça-feira, 2 de junho de 2026

Chá das Letras - 21 de maio - Lançamento do livro "Caracteres Navegantes", da professora Carla Martinez.

                                                                                                                                      



No dia 21 de maio de 2026, pelas 11.45, na nossa BE, assistiu-se ao lançamento do livro "Caracteres Navegantes" da autoria da professora Carla Martinez.

Entre o aroma da infusão cítrica e o paladar "pecaminoso" do bolo caseiro, procedeu-se, através de sorteio, à oferta de um exemplar do novo livro, cujas palavras nos permitem navegar, "não importa a nave que nos transporta."

Neste balneário da alma, há sempre lugar para mais "cinco" na edificação de territórios que nos elevem "para além dos olhos..."  


Sinopse da obra:

Toda a deslocação entre dois pontos no espaço físico é, em última instância, a viagem, que salve a objetividade da descrição se abriga sob o chapéu de toda e qualquer ação humana.

A par da mais rotineira ida para o local onde exercemos a nossa profissão, onde vivem os nossos familiares queridos, onde encontramos os nossos amigos, onde aprendemos sobre os gestos de povos distantes e apreciamos outras paisagens, está a mais inusitada volta de um percurso no qual se assumiu o posicionamento da nossa condição humana, se encontrou a razão da nossa existência, se deu a aprendizagem das nossas vidas.

As palavras ajudam-nos a navegar não importa a nave que nos transporta.


Rita Taborda Duarte - A leitura ganha vida! Ler para viajar, sentir e crescer em todas as dimensões.

 



A escritora Rita Taborda Duarte esteve, em linha, na BE da nossa ESFB, no dia 15 de maio de 2026, para dar voz e alma à importância da leitura junto dos alunos do 2.º ciclo. Neste encontro mágico, a história fascinante do livro O Manel e o Miúfa ganhará vida e transformar-se-á numa efetiva alavanca de treino da empatia. Ao longo do evento, os nossos jovens tiveram a oportunidade de descobrir que, no cerne de cada livro, existe uma pessoa real e uma inspiração que podem transformar, para sempre, o rumo das suas vidas. 


Fica o convite para a leitura integral de livros e para a abertura "total" de mentes, para além dos olhos...


Biografia

Rita Taborda Duarte nasceu em 1973. Docente do ensino superior (Escola Superior de Comunicação Social) é, desde 2011, membro da Comissão de Leitura da Fundação Calouste Gulbenkian. Escreve regularmente em diversas publicações, como o site Rol de Livros (FCG), ou a revista Colóquio-Letras e tem integrado júris de prémios para originais de literatura infanto-juvenil. Em 2003, vence o prémio Branquinho da Fonseca Expresso-Gulbenkian, com o livro A Verdadeira História da Alice. A partir daí, tem escrito com regularidade para crianças e jovens, contando com uma dezena de obras publicadas, muitas delas incluídas no Plano Nacional de Leitura.

Fonte: Editorial Leya





Dia Mundial da Língua Portuguesa - 5 de maio


Junto dos nossos alunos, vamos enaltecer a língua de Camões "para além dos olhos...".
Encontram na biblioteca digital da nossa Fonseca muitos livros à vossa espera.

Ajudem a promover a leitura!







Recursos educativos para o exercício da votação

 

No âmbito da preparação para a eleição interna fonsequinado no dia 30 de abril (canção favorita - Sons da Liberdade), partilham-se alguns recursos importantes para o exercício da cidadania democrática.


 1 - Voto - uma arma do povo - as primeiras eleições livres em Portugal

 https://youtu.be/jKI54DAo4Ho  (11.59)

25 de abril de 1975, o dia em que quase seis milhões de portugueses, de norte a sul do país, puderam, pela primeira vez, escolher livremente os seus representantes numa assembleia política, com a garantia de que o seu voto seria devidamente escrutinado. As eleições para a Assembleia Constituinte de 25 de abril de 1975 marcaram a história contemporânea portuguesa: foram o primeiro sufrágio livre e universal no país. Não admira, assim, que os portugueses tenham aderido em massa: votaram cerca de 92% dos eleitores. Os 5 711 829 votos legitimavam, por si só, se tal fosse necessário, o novo regime democrático.

Fonte: Assembleia da República



2 - Carolina Beatriz Ângelo - a primeira mulher a votar

https://youtu.be/f6NniZottDM (14.15)

Carolina Beatriz Ângelo foi uma médica e feminista portuguesa. Foi a primeira mulher cirurgiã e a primeira mulher a votar em Portugal, por ocasião das eleições da Assembleia Constituinte, em 1911.

Fonte: Assembleia da República









Dia Mundial do Livro - 23 de abril - Convite à leitura

 O Dia Mundial do Livro é comemorado por decisão da UNESCO a 23 de abril, desde 1995. A efeméride tem a finalidade de valorizar a importância do livro e da leitura, enquanto bem cultural, promotor de liberdade, de democracia e de cidadania.


Ler é ser Livre! Ensinem, aos vossos alunos, o sabor da liberdade.



"Tudo aquilo parecem desenhos,

Mas dentro das letras estão vozes.

Cada página é uma caixa infinita de vozes."

MIA COUTO, Mulheres de Cinza: As Areias do Imperador










Rádio Benevides



No dia da liberdade - 25 de Abril -, a Rádio Benevides nasceu com anúncio do lançamento do seu primeiro podcast, para que todos colaborem ativamente, sendo um projeto aberto à participação de todos os alunos, professores e restante comunidade escolar.

https://radiobenevides.wordpress.com/portfolio/1-o-25-de-abril-de-1974/


Aguardamos as vossas iniciativas!

25 de Abril - "E despois do adeus..."


 

Perante uma conjuntura global que evidencia um enorme retrocesso civilizacional, a BE testemunhou, entre os dias 22 e 30 de abril, com grande orgulho e gratidão, o envolvimento exemplar da nossa Escola na preparação da Festa do 25 de abril - “E depois do Adeus” - como um inabalável baluarte de resistência democrática.

A mobilização notável de toda a comunidade educativa é um desígnio férreo de propalar o valor da liberdade além muros, garantindo que a Fonseca fortaleça as suas sinergias e continue a narrar muitas das suas ilustres páginas de grande glória ao longo de 111anos.


PROGRAMAÇÃO “E Depois do Adeus”


Exposições: Painéis da Memória - "Antes, Durante e Depois" – (átrio da escola) 


 

Ciclo de Cinema "Abril em imagens”

A Guerra - Joaquim Furtado - série sobre a guerra colonial 

As armas e o povo, 1975 - disponível no PNC 

 


Intervenção Literária — "Palavras em Liberdade"



Atelier dos Cravos – (Biblioteca Escolar)



Atuação do grupo Canta’Alto

 


Inauguração da “Rádio Benevides”

 


Jogo digital – Monopólio 25 de Abril

Link: https://view.genially.com/69dea9d1ff1dcb3d38f2d809


 


 Cante Alentejano — Grupo Alcante

 





Eleição da canção de intervenção favorita

Participação de toda a comunidade educativa (presencial e a distância) nas cabines de voto (físicas e virtuais).

Canção vencedora: ⁠Zeca Afonso - Grândola, Vila Morena - 28 votos Medalha de ouroTroféu



Palestra, presencial e em linha, "Resistência" 

Orador - professor Mauro Gaspar, neto do prisioneiro político – Américo Fernandes; Contextualização histórica - professor Anselmo Cruz.



Chá das Letras – anfitriã surpresa – Clarice Lispector – no centro da BE.

 


Exposição - "Caixa da Censura" - Usa o Lápis azul para pintar a liberdade

Autoras: Azira Can e Luísa Sá



Coletânea de Memórias

           Coordenação das professoras: Constança Fernandes, Yara Sinkovec e Adriana Moreira

Recolha de relatos (em vídeo) da comunidade educativa (alunos, professores e funcionários).

Humanização da história, através de relatos de quem viveu e/ou ouviu contar “estórias” sobre o 25 de Abril.

                                                                      

RECURSOS

  • Propostas de leitura – 2.º ciclo

História de Uma Flor, de Matilde Rosa Araújo

 Link do áudio - https://youtu.be/Svf4jDEmSgc

 


Sinopse: «Nas ruas havia flores vermelhas por toda a parte. No peito das mulheres, dos homens, nos olhos das crianças, nos canos silenciosos das espingardas. Nem era uma guerra, nem uma festa. Era o mundo de coração aberto.» No 34.º aniversário da Revolução dos Cravos, um livro que é um poema à beleza e à liberdade ganha nova dimensão nesta edição autónoma, exemplarmente ilustrada. Detalhes

Fonte: sítio da Wook

 

  • Proposta de leitura – 3.º ciclo

 “Era uma vez um cravo” – José Jorge Letria 

Obs.: Este livro digital está disponível no Repositório de Leitura da nossa BE. Áudio - https://esfb.sharepoint.com/bib/sub2

 


Sinopse:

Era Uma Vez Um Cravo é um livro em forma de poema, com versos de José Jorge Letria e ilustrações de André Letria, todas a preto e branco, à exceção dos cravos vermelhos. Narrado sob o ponto de vista de um cravo, o livro conta-nos a sua viagem na manhã do dia 25 de Abril de 1974, com André Loubet a dar voz aos encontros deste cravo com uma florista, um militar e muitos outros cidadãos de um Portugal que agora acordava com a Liberdade.

Fonte: Agenda Cultural de Lisboa

  

  • Proposta de leitura e de atividades – Ensino secundário

“A Garrana” de Matilde Rosa Araújo

 


Link com a proposta de exploração: https://read.bookcreator.com/IQlr34kDB9SliSryHwGUVc4HfN52/WHNSFdWtS2CIKegE06N9Qg

Este livro digital está disponível no Repositório de Leitura da nossa BE: https://esfb.sharepoint.com/bib/sub2

  

Leitura da edição especial da revista Blimunda, alusiva à celebração dos 40 anos do 25 de abril de 1974.

 


“Numa data tão simbólica para Portugal, a Blimunda não poderia ficar alheia ao aniversário de 40 anos do 25 de Abril. Neste mês a revista dedica boa parte dos seus conteúdo à celebração da Revolução dos Cravos. Do acervo de Vasco Gonçalves, em depósito na Fundação José Saramago, recuperam-se 15 cartazes do 25 de Abril, acompanhados por frases de 15 convidados, de diferentes países, sobre o significado desse momento histórico. Sara Figueiredo Costa escreve sobre Os Rapazes dos Tanques, de Alfredo Cunha e Adelino Gomes, um precioso registo da manhã em que a democracia renasceu. Há ainda espaço para A Hora da Revolução: vinte anos depois, um texto escrito por Eduardo Lourenço em 1994, inédito em português, e para O sabor da palavra Liberdade, discurso proferido por José Saramago em 1990(…).

 Fonte: Revista Blimunda

 https://revistablimunda.wordpress.com/wp-content/uploads/2014/04/blimunda_23_abril_2014_1.pdf

 

 

 

 

 

 


quarta-feira, 27 de maio de 2026

O Canto da Liberdade - 22 de Abril

No dia 22 de abril de 2026, realizou-se o evento artístico - "O Canto da Liberdade" - aberto à comunidade educativa, com a inauguração da "Rádio Benevides" da autoria do professor Nuno Reis, para além da participação dos grupos: Cant'ALTO e Alcante - Cante Alentejano - Património Imaterial da Humanidade, no âmbito das comemorações do 25 de abril de 2026 - "E Depois do Adeus".

Programa:


Grupo ALcante (Cante alentejano)

Grupo Cant'ALTO


Inauguração da Rádio Benevides



Jogo do Monopólio do 25 de Abril



Leitura coletiva do poema "As Portas que Abril Abriu" de Ary dos Santos.

Cura Poética - 13 de abril


"A esperança poética resiste"





Recomeça...

Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...

Miguel Torga, in Diários Vols. XIII a XVI



Miguel Torga - Biografia e bibliografia

É em São Martinho de Anta, no distrito de Vila Real, que nasce, a 12 de Agosto de 1907, Adolfo Correia Rocha. Esta pequena vila transmontana, a que regressa sempre que a necessidade de retemperar forças se faz sentir, permanecerá o seu axis mundi:

«S. Martinho de Anta não é um lugar onde, mas um lugar de onde…»;«(…) é a terra onde nasci e de onde verdadeiramente nunca saí».

Os pais, camponeses pobres, marcaram-no decisivamente, sendo muitas as referências que lhes faz n’A Criação do Mundo e no Diário. No pai, Francisco Correia Rocha, admira a tenacidade, a grandeza de caráter, o sentido de justiça e aquele amor à terra que é sua marca distintiva.
Com a mãe, Maria da Conceição Barros, mantém uma relação de afeto e cumplicidade. Dos dois irmãos que teve, José emigrou para o Brasil, onde ficou; já Maria converteu-se numa espécie de matriarca, assumindo, na aldeia natal, a liderança da casa de lavoura, depois da morte dos pais. Com ela manteve o poeta uma relação de estreita cumplicidade:

«Gostávamos um do outro como dois cúmplices de um mistério sagrado, feito de raízes e vínculos.  Tudo nela era,  como em mim, ligação à terra, às tradições, às origens.»

Depois de fazer a instrução primária na escola de S. Martinho de Anta, Adolfo Rocha vai para o Porto, durante um ano, como criado de servir, tendo, depois, o mesmo destino de todas as crianças menos abonadas da região — o Seminário de Lamego. Aí ingressa, em 1918, ficando apenas um ano. Resulta dessa estada um profundo conhecimento dos textos bíblicos que os títulos das suas obras A Criação do Mundo ou O Outro Livro de Job, entre outros, denunciam. A falta de vocação sacerdotal era manifesta. É assim que, aos 13 anos, em 1920, parte para o Brasil, onde trabalha durante cinco anos na fazenda do tio, no estado de Minas Gerais. Este, que ganhou a vida com grande tenacidade e não menor abnegação, também não o poupa a sacrifícios e, desde capinar café até laçar cobras venenosas ou fazer a escrita da fazenda, tudo decorre a seu cargo.

Esta estada no Brasil proporciona-lhe experiências de vida merecedoras de sistemáticas alusões ao longo da obra. Aí frequenta, em 1924, o Ginásio Leopoldinense e, em 1925, regressa a Portugal, onde vai continuar os estudos, pagos pelo tio como recompensa dos cinco anos de trabalho na Fazenda de Santa Cruz. Conclui o curso dos liceus em três anos e matricula-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, que frequenta entre 1928 e 1933, habitando uma república de estudantes — a  Estrela do Norte.

Em 1928 publica a sua primeira obra em verso, Ansiedade, que acaba por retirar do mercado e, entre 1929 e 1930, é chamado a colaborar na revista Presença. A passagem por esta revista, ainda que breve, foi determinante na sua formação literária, propiciando‑lhe o contacto com a obra de escritores estrangeiros e despertando-lhe o fascínio pela sétima arte, se bem que a sua independência e o seu antiacademismo o fizessem rapidamente dela dissidir.

Lança-se, então, com Branquinho da Fonseca, na aventura efémera da revista Sinal, e recomeça a sua publicação individual: Rampa, em 1930, e em edições de autor: Pão Ázimo, Tributo e Abismo. Terminado o curso de Medicina, Adolfo Rocha regressa a S. Martinho e exerce, depois, como clínico geral, em Vila Nova de Miranda do Corvo. Em 1934 publica, já com o pseudónimo Miguel Torga, A Terceira Voz. Miguel, como Cervantes e Unamuno, duas referências da cultura ibérica; Torga, como a urze resistente da sua terra transmontana.

O Outro Livro de Job vê a luz em 1936, ano em que, juntamente com Albano Nogueira, funda a revista Manifesto, onde colaboram, entre outros, Vitorino Nemésio, António Madeira, Joaquim Namorado e Fernando Lopes Graça. A publicação termina por problemas com a Censura. Entretanto, em 1937, saem O Primeiro Dia e O Segundo Dia d’A Criação do Mundo e no ano seguinte O Terceiro Dia.

A Criação do Mundo será a ficcionalização do cosmos do seu criador «plasmado em prosa», e enquadrado pela cronologia dos factos políticos, históricos e sociais do Portugal do século passado que o próprio Torga assim legitima:

«Todos nós criamos um mundo à nossa maneira. […] Criamo-lo na consciência, dando a cada acidente, facto ou comportamento a significação intelectual ou afetiva que a nossa mente ou a nossa sensibilidade consentem. E o certo é que  há tantos mundos como criaturas.  O meu tinha de ser como é, uma torrente de emoções, volições, paixões e intelecções a correr desde a infância à velhice no chão duro de uma realidade proteica.»

Torga, termina, em Coimbra, a especialidade em otorrinolaringologia e começa as suas viagens — por enquanto só pela Europa —, que nunca mais deixaria de fazer, como se estas fossem mais do que um complemento na sua formação de homem e poeta observador da realidade.

Corre o ano de 1939, e fixa residência em Leiria, onde exerce a sua profissão. Não perde, todavia, o contacto com Coimbra, onde se desloca todos os fins de semana. Colabora na Revista de Portugal, dirigida pelo seu amigo Vitorino Nemésio. É em casa deste que conhece a belga Andrée Crabbé, uma ex-aluna do poeta açoriano que se encontrava a frequentar o curso de férias na Universidade de Coimbra. Mais tarde, sua mulher.

Estamos no tempo da Guerra Civil de Espanha e o poeta vive-o amargamente; nela se jogavam ideais geracionais por ele também acalentados; por isso são recorrentes as referências a este triste episódio da humanidade em várias das suas publicações, nomeadamente nos Novos Contos da Montanha e nos Poemas Ibéricos… É também por esta altura que publica O Quarto Dia d’A Criação do Mundo, onde verte amargas reflexões sobre essa guerra fratricida. O livro é apreendido e Miguel Torga preso no Aljube.

A sua detenção é acompanhada pela solidariedade dos seus amigos leirienses. Aí compõe «Ariane», o seu poema mais belo de intervenção e resistência. Posto em liberdade nesse mesmo ano, 1940, casa com Andrée Crabbé.

«Vou tentar ser um marido cumpridor. Mas quero que saibas, enquanto é tempo, que em todas as circunstâncias te troco por um verso.»

Nesse ano ainda publica os contos Bichos e fixa residência em Coimbra, onde vão ser frequentes as tertúlias com intelectuais como Eugénio de Andrade, Ruben A. e Ribeiro Couto. As suas impressões desta cidade, com a qual sempre foi exigente, encontram-se também plasmadas ao longo de toda a obra e, particularmente, no volume Portugal, de 1950.

«Favoravelmente colocada entre Lisboa e o Porto, a primeira, marítima, a segunda, telúrica, uma a puxar para fora e outra a puxar para dentro, ela representa uma neutralidade vigilante, fazendo a osmose do espírito que parte com o corpo que fica. Do espírito que vai, ou deve ir, a todas as aventuras do mundo, e do corpo que tem raízes imutáveis no chão nativo.»

Aberto consultório no Largo da Portagem, n.º 45, aí exerce a sua profissão, escreve e recebe amigos e intelectuais durante mais de cinquenta anos. Frio e austero, o seu local de trabalho possui uma janela com vista sobre a cidade e o Mondego, numa comunhão com o mundo. A ele se dirige, quotidianamente, utilizando os transportes coletivos, não sem antes aproveitar para entrar nas principais livrarias da Baixa. Não contrariando os hábitos geracionais, detém-se pelos cafés em tertúlias com amigos — primeiro na Central e, posteriormente, no Arcádia.

Um dos anos mais férteis da sua produção literária é 1941. Publica Diário I, Terra Firme, Mar e a coletânea de contos Montanha. Desta última, apreendida pela Censura, é feita uma edição em 1955 no Rio de Janeiro com o nome Contos da Montanha, que cautamente circula em Portugal. Neste mesmo ano profere, no Segundo Congresso Transmontano, a conferência «Um Reino Maravilhoso». Um reino que:

«(…) oficialmente vai de Vila Real a Chaves, de Chaves a Bragança, de Bragança a Miranda, de Miranda a Régua. Um mundo! Um nunca acabar de terra grossa, fragosa, bravia, que tanto se levanta a pino num ímpeto de subir ao céu, como se afunda nuns abismos de angústia, não se sabe por que telúrica contrição. Terra-Quente e Terra-Fria. Léguas e léguas de chão raivoso, contorcido, queimado por um sol de fogo ou por um frio de neve. Serras sobrepostas a serras. Montanhas paralelas a montanhas. Nos intervalos, apertados entre os rios de água cristalina, cantantes, a matar a sede de tanta angústia. E de quando em quando, oásis da inquietação que fez tais rugas geológicas, um vale imenso, dum húmus puro, onde a vista descansa da agressão das penedias. Mas novamente o granito protesta. Novamente nos acorda para a força medular de tudo. E são outra vez serras, até perder de vista.»

Miguel Torga continua a publicar, sempre em edições de autor, de aspeto austero e frio, por razões económicas mais dos leitores do que propriamente suas. Em 1946 vê a sua mulher, Andrée Crabbé, por ordem de Oliveira Salazar, ser demitida de professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Envolve-se depois no projeto do lançamento da revista Rebate, abortado pela Censura. Publica por esses anos Vindima, Novos Contos da Montanha e Cântico do Homem que, juntamente com Orfeu Rebelde (de 58), detém os poemas de maior intervenção e resistência.

A paixão pela caça e pelas viagens, muito especialmente em Portugal, de que o livro homónimo dá conta, as idas anuais às termas do Gerês, as peregrinações cíclicas a S. Martinho de Anta são gostos simples deste homem que vive a vida com igual simplicidade. Todavia, não descura as viagens além-fronteiras e, em 1950, faz um périplo de automóvel pela Itália e, em 1953, um cruzeiro pela Grécia e Turquia com Fernando Vale, o médico de Arganil e o amigo de todas as horas. As suas obras começam, então, a ser traduzidas em inglês e as publicações sucedem-se: Pedras Lavradas, Alguns Poemas Ibéricos e mais volumes do Diário.

Em 1954, revisita com a mulher o Brasil, nomeadamente os locais onde passou a sua adolescência. Recusa o prémio comemorativo da morte de Garrett, do Ateneu Comercial do Porto, oferecendo o dinheiro a esta instituição para que invista na publicação de obras de jovens poetas.

Nasce, no ano seguinte, a sua única filha — Clara — e  Torga publica o ensaio Traço de União. Vê o Diário VIII ser apreendido pela Censura e o seu nome proposto e apoiado com entusiasmo para  o Prémio Nobel da Literatura que nunca chegaria a receber.

Na década de 1960, publicará, entre outros, Câmara Ardente e mais volumes do seu Diário. Note-se que o Diário de Miguel Torga está longe de ser uma feira literária com um palco de exibições eufóricas ou disfóricas. Num total de 16 volumes, publicados ininterruptamente entre 1941 e 1993, constituem o retrato do homem, do escritor e também do seu tempo. Foi logo no 3.º volume que Torga define a sua obra:

«Um diário não é necessariamente um perpétuo mea culpa. Pode ser um simples memento, um exercício espiritual, um caderno de apontamentos, tudo o que se queira. […] Pela minha parte, não sou delator, nem meu, nem dos outros. […] Da minha pena de artista quero que saia apenas aquela intimidade que me parece ser suficiente para matar a justa curiosidade do leitor devotado, e me deixe ao abrigo de todas as bisbilhotices doentias.»

Sempre vigiado pela PIDE, Miguel Torga visita Angola e Moçambique em 1973. Começa, com a revolução de 25 de Abril de 1974, a participar, não sem um certo ceticismo, em manifestações e comícios ligados ao Partido Socialista, onde discursa, ainda que assumindo-se sempre como independente — a mesma independência que pauta a sua criação literária.

Passados que são 35 anos da publicação de O Quarto Dia d’A Criação do Mundo, surge O Quinto Dia, que privilegia a sua experiência na prisão. Enfim, parece que Torga é final e abertamente reconhecido, também pelos prémios que lhe são atribuídos. E são muitos. Tantos que deles não podemos dar conta aqui. Entre eles, o maior galardão em Língua Portuguesa: o Prémio Camões, em 1989. A sua obra conhece também várias adaptações para cinema, teatro e televisão. Promovem-se congressos internacionais em sua homenagem.

Paralelamente,  Miguel Torga continua sempre a escrever e a publicar: Fogo Preso, O Sexto Dia e mais Diários. E continua também a viajar: ao Gerês e a S. Martinho de Anta, ao México, aos Açores e a Macau, onde profere a celebre conferência «Camões».

Familiarizado mas não conformado com a doença que há vários anos o consome, Miguel Torga morre em Coimbra a 17 de janeiro de 1995, sendo sepultado no cemitério de S. Martinho de Anta:

«(…) terra onde têm  raízes, os versos.»

A obra de Miguel Torga,  traduzida em várias línguas, configura, antes de mais, uma coerência inabalável. Através de um estilo desafetado e despojado, ela assume-se como um macro discurso:

«(…) defensor incansável do amor, da verdade e da liberdade, a tríade bendita que justifica a passagem de qualquer homem por este mundo.»

Assim a justificou e, ciente de que… «Nem tudo é lei da vida ou lei da morte» Miguel Torga inscreveu o seu nome, por diversas vezes proposto ao Nobel da Literatura, de forma independente, mas cheia de humanidade, junto dos maiores das letras portuguesas, erigindo-se, por direito próprio, como uma referência moral e cultural.

«É bom isto de ser médico e poeta», diria.

Como homem, como médico, como escritor, Miguel Torga conservou uma fidelidade intransigente aos preceitos norteadores da sua conduta de vida:

«Ser idêntico em todos os momentos e situações. Recusar-me a ver o mundo pelos olhos dos outros e nunca pactuar com um lugar-comum.»

Esta biografia teve por base o livro O Essencial sobre Miguel Torga, de autoria de Isabel Vaz Ponce de Leão.

Fonte: site da Imprensa Nacional